O baiacu é um daqueles personagens do oceano que desperta uma mistura curiosa de fascínio e receio. Conhecido no Japão como fugu, esse peixe carrega uma fama pesada, e não é para menos: ele guarda em suas vísceras, na pele e até nos músculos a tetrodotoxina, uma das neurotoxinas mais letais que a natureza já produziu. Mas, para além do veneno que paralisa, estudos recentes trazem uma perspectiva nova sobre como a convivência entre “irmãos” da mesma espécie molda o comportamento e a inteligência social desses animais.
O veneno que paralisa e o risco à mesa
Pertencente à família Tetraodontidae, o baiacu é famoso por aquela tática de se inflar como um balão quando se sente acuado. O que parece um mecanismo de defesa simpático, porém, esconde uma substância capaz de bloquear os canais de sódio das células nervosas. Na prática, isso interrompe a comunicação do cérebro com o corpo. Se ingerida em doses elevadas, a tetrodotoxina causa dormência nos lábios e extremidades, evoluindo rapidamente para fraqueza muscular, náuseas e, nos casos mais graves, falência respiratória.
Mesmo com o perigo batendo à porta, o consumo do peixe é uma tradição secular, especialmente na cultura japonesa desde o período Edo. Lá, o preparo é coisa séria: apenas chefs com licenças rigorosíssimas podem tocar no animal. O peixe precisa chegar vivo à cozinha para garantir o frescor e evitar que as toxinas se espalhem. É uma iguaria que flerta com o perigo, o que acaba atraindo consumidores em busca de uma experiência gastronômica — e de certa forma, corajosa. Por outro lado, países como os Estados Unidos e membros da União Europeia preferem não arriscar, mantendo regulamentações severas ou proibições totais à venda do peixe para proteger a saúde pública.
Famílias grandes e o aprendizado social
Enquanto a gastronomia foca no risco do veneno, a ciência tem olhado para o berçário desses peixes. Um estudo conduzido por Bruno Camargo dos Santos, ecologista comportamental da Universidade de Wageningen, revelou que o tamanho do grupo onde o baiacu cresce define quem ele será no futuro. A pesquisa separou filhotes em três cenários: grupos grandes com interação livre, grupos pequenos e grupos grandes, mas com divisórias que limitavam o contato físico.
O resultado mostrou que peixes criados em “famílias grandes” (com cerca de 32 irmãos) desenvolveram uma etiqueta social muito mais refinada. Eles apresentaram menos agressividade e maior capacidade de andar em bando. O ponto crucial é que não basta ter muitos irmãos por perto; o contato direto é fundamental. Os peixes que podiam apenas ver ou cheirar os outros, sem o toque, não desenvolveram as mesmas habilidades dos que interagiam livremente.
A sobrevivência depende da boa vizinhança
Essa competência social é colocada à prova quando o peixe atinge a maturidade. Em experimentos onde um indivíduo maior e desconhecido era introduzido no território, os peixes vindos de grupos grandes souberam “ler o ambiente” melhor. Eles adotaram comportamentos submissos mais rápido, uma estratégia vital na natureza para evitar ataques e ser aceito como um ajudante no grupo, garantindo a permanência no território.
Aqueles que cresceram em grupos pequenos ou isolados acabaram sendo mais agressivos e menos flexíveis, o que, no mundo selvagem, pode significar a exclusão do grupo e, consequentemente, a morte. Isso mostra que as bases do comportamento social não nascem com o indivíduo; elas são lapidadas nos primeiros meses de vida. Assim como em outras espécies sociais, incluindo a nossa, as interações precoces com os pares são o que determinam o sucesso da convivência coletiva no futuro.