Os ingleses têm uma queda inegável por aquelas tramas aconchegantes com bichos no meio do mato, assim como adoram um bom mistério de assassinato no interior. Juntar as duas coisas parece o caminho óbvio, e é exatamente essa a aposta de The Sheep Detectives, um projeto com o selo da Amazon MGM Studios e o envolvimento de Hugh Jackman. A premissa coloca os próprios ungulados lanudos para investigar um crime hediondo. As ovelhas assumem a bronca: reúnem evidências, trazem as pistas à tona e chegam a rabiscar diagramas no chão para dar um empurrãozinho na mente meio devagar dos humanos. É tudo muito bonitinho, sabe?
Mas a empolgação morre por aí. Adaptada do romance de Leonie Swann, essa comédia de mistério é tão pacata que parece ter como único objetivo ser igual aos seus heróis: fofa e reconfortante. O problema é que a execução acaba esbarrando num tom desajeitado e excessivamente dócil. O filme cai naquela categoria meio ingrata de entretenimento infantil que, por algum motivo torto, parece ter sido moldada sob medida para o gosto de gente mais velha. Falta pulso, falta uma faísca que te segure de verdade na cadeira.
O tempo e o amigo silencioso
Enquanto algumas narrativas forçam a barra na fofura literal para tentar carregar a história nas costas, outras encontram uma força absurda em elementos bem menos óbvios. É o que vemos na grandiosa obra Silent Friend, que conta com a presença sempre magnética de Tony Leung Chiu-wai. O filme se desdobra de um jeito muito próprio, através de três histórias distintas. Uma delas bate na porta do nosso presente; outra se embrenha na névoa experimental dos anos 1970; e a terceira espia o século XX ainda engatinhando. O que amarra toda essa viagem no tempo não é um detetive caricato ou uma reviravolta mirabolante, mas um único personagem, o tal “amigo silencioso”. Uma árvore ginkgo biloba. Imponente, estoica, talvez um tanto sensível, mas acima de tudo, sobrevivente.
Ambientado na Alemanha e comandado pela diretora húngara Ildikó Enyedi, o longa ostenta uma fluidez formal e narrativa que deixa a gente meio hipnotizado. Enyedi se recusa a entregar as histórias mastigadas em capítulos fechadinhos. Ela corta de uma época para a outra com uma facilidade assustadora, mergulhando no passado pelo tempo de apenas um ou dois takes antes de nos arremessar de volta para outra linha temporal. O que segura as pontas dessas acrobacias dramáticas é justamente a árvore. A gente dá de cara com ela quando falta mais ou menos uma década para seu ducentésimo aniversário, num recorte que antecede e atravessa o caos da pandemia da Covid-19. No fim das contas, fica o espaço aberto pra pensar: a melhor investigação que o cinema pode propor talvez não seja sobre quem cometeu um crime, mas sobre como a natureza observa o nosso tempo passar.