Não há sensação mais gratificante para um fã do que ver suas teorias mais loucas se tornarem realidade, não é mesmo? Sempre que uma franquia intelectual se torna um fenômeno global e a história ainda está em aberto, o público clama por respostas, tentando desesperadamente adivinhar o final. Isso foi, sem dúvida, a realidade absoluta para a comunidade de “Harry Potter”, que viveu momentos de pura euforia enquanto J.K. Rowling finalizava a série original de romances sobre o menino bruxo entre o início e meados dos anos 2000.
Vale deixar algo bem claro aqui: sou um fã raiz da série, cresci com esses livros e, consequentemente, mergulhei fundo no fandom online. Eu estava nas trincheiras de vários fóruns de discussão, coletando essas teorias como se fossem Horcruxes ao longo dos anos. Se você era um desses “lurkers” nos fóruns por volta de 2005 ou se nem tem certeza do que o termo “fandom” significa, vamos revisitar algumas das previsões mais populares que se concretizaram nos três últimos livros. E, claro, prepare-se para spoilers pesados.
A verdadeira natureza de Snape
Uma das reviravoltas mais famosas de toda a saga envolve Severus Snape, o mestre de Poções de Hogwarts, interpretado magistralmente no cinema pelo saudoso Alan Rickman. Snape, que passava a vida atormentando estudantes por esporte — especialmente os da Grifinória e o trio Harry, Hermione e Rony —, sempre agiu como um vilão. Quando Harry descobre, em “O Cálice de Fogo”, que Snape fora um Comensal da Morte fiel a Voldemort, as suspeitas apenas se intensificam. Vemos Snape assassinar Dumbledore em “O Enigma do Príncipe”, mas nem tudo era o que parecia.
Os fãs não apenas discerniram corretamente que Dumbledore e Snape tinham um acordo — o diretor já estava morrendo devido a uma maldição e arranjou sua própria morte —, mas também acertaram que a história de Snape com Harry remontava à mãe do garoto, Lily. Com base em pistas de contexto, como o comportamento de Snape em uma memória vista em “A Ordem da Fênix”, os leitores perceberam que tudo o que ele fazia era em honra à memória de Lily, incluindo salvar a vida de Harry diversas vezes.
O mistério de R.A.B.
Quando Snape mata Dumbledore, o bruxo mais velho já estava seriamente enfraquecido devido a uma expedição anterior a uma caverna secreta, onde acreditavam estar uma das Horcruxes de Voldemort. Infelizmente, o medalhão protegido por uma poção vil e um lago de Inferi era falso, contendo apenas um bilhete de um misterioso “R.A.B.”, que afirmava ter roubado a peça real. Harry termina o sexto livro desolado, com um medalhão falso no bolso.
No entanto, os fãs chegaram à resposta muito antes do lançamento de “As Relíquias da Morte”. Pouco depois de lerem o sexto livro, os “Potterheads” lembraram que Sirius Black, padrinho de Harry, mencionou certa vez seu irmão, Regulus. O nome completo do rapaz era Regulus Arcturus Black, um ex-Comensal da Morte que traiu Voldemort, tornando essa teoria cem por cento correta.
Romances improváveis e esperados
Remus Lupin e Nymphadora Tonks não eram personagens que se imaginaria juntos logo de cara. Lupin foi introduzido no terceiro ano de Harry e Tonks apenas em “A Ordem da Fênix”. Ainda assim, os fãs começaram a especular se os dois encontrariam o caminho um para o outro. Embora o relacionamento na tela seja restrito a momentos minúsculos, ele é confirmado no final do livro seis, quando uma Tonks desesperada implora para que Remus reconsidere a relação, apesar das hesitações dele.
Por outro lado, antes da conclusão dos livros, as “shipping wars” (guerras de casais) aqueceram os fóruns. A grande dúvida era: Hermione ficaria com Harry ou Rony? Em 2005, com o lançamento do sexto livro, tivemos a resposta: Rony e Hermione eram o casal, enquanto Harry e Hermione eram apenas grandes amigos. Rony e Hermione funcionam melhor romanticamente porque se desafiam; ela o incentiva a ser mais focado, e ele a ajuda a relaxar. Foi a confirmação de um “ship” que muitos aguardavam ansiosamente.
Isso abriu caminho para Harry e Ginny Weasley. Embora a personagem de Ginny nos filmes tenha sido mal aproveitada em comparação à sua contraparte literária, nos livros ela passa por um crescimento incrível. De uma garota tímida, ela se torna confiante e popular. Em “O Enigma do Príncipe”, Harry é consumido por ciúmes ao vê-la com outro, culminando em um primeiro beijo após uma vitória no Quadribol. Aqueles que previram que Harry se apaixonaria por Ginny foram ricamente recompensados.
O mundo bruxo além de Hogwarts
Desde o primeiro livro, os fãs se perguntavam se existiam outras escolas de magia. “O Cálice de Fogo” nos apresentou Beauxbatons e Durmstrang, mas a curiosidade permaneceu. A expansão do universo com “Animais Fantásticos” e o site Wizarding World provou que os fãs estavam certos sobre a existência de uma rede global.
Descobrimos Ilvermorny nos EUA, Uagadou na África, Mahoutokoro no Japão, Koldovstoretz na Rússia e, para nosso orgulho, Castelobruxo na floresta amazônica brasileira. Os fãs sempre souberam que a magia não poderia estar restrita apenas à Grã-Bretanha, e a confirmação dessas localizações globais validou anos de especulação geográfica.
O Diadema e a sátira moderna
Havia ainda a questão do Diadema de Ravenclaw. Em “O Enigma do Príncipe”, Harry tenta esconder seu livro de Poções na Sala Precisa e nota uma tiara velha sobre um busto. Fãs astutos conectaram os pontos imediatamente, teorizando que aquela era a Horcrux perdida — e estavam certos.
Contudo, nem toda “teoria” ou desejo de fã segue o cânone respeitoso da série original. Recentemente, o programa Saturday Night Live decidiu brincar com o fervoroso desejo dos fãs por romances, criando um esquete chamado “Heated Wizardry”. Nele, Harry e Rony se envolvem em um romance tórrido em Hogwarts. O falso trailer faz questão de esclarecer que todos os envolvidos são maiores de idade, com o narrador explicando que “Hogwarts é basicamente uma faculdade agora”. Enredo, mitologia e construção de mundo tornam-se irrelevantes; o foco é ver dois bruxos atraentes se beijando. Embora a escrita não seja exatamente uma obra de arte, o esquete se compromete totalmente com o gênero de “fanfic”, entregando olhares sensuais e uma produção surpreendentemente fiel. Se nada mais, isso prova que, mesmo anos após o fim da saga, nada está imune à imaginação — ou à sede — inesgotável dos fãs.